O futebol brasileiro tem, hoje em dia, um problema iminente e constantemente agravante chamado “cotas de televisão”. É inevitável discutir isso na realidade do Figueirense, uma vez considerada a imensa dificuldade que foi permanecer na primeira divisão.

Por que inevitável? Porque as coisas tenderão a ficar mais difíceis e, excluindo outros fatores e contarmos apenas com o poder econômico, com cada vez menor capacidade de competição. Ou seja: na orientação que a Globo, CBF e demais envolvidos desejam para o futebol brasileiro, times do porte do Figueirense devem seguir apenas o ritmo do batuque contra o rebaixamento.

Como quem pensa e organiza o futebol brasileiro aposta num modelo relapso e incompetente que assume que as nossas características boas são ruins e as ruins são boas – querem estádios lotados que nem os sucessos de audiência da Europa, mas não querem botar preços ao nível médio de renda da população, por exemplo – é desnecessário dizer que essa tentativa de hispanizaçãoé muito bem vista e possivelmente como exemplo a ser seguido. Afinal, no raciocínio de senso comum raso, segue algo mais ou menos do tipo: Real Madrid e Barcelona são os melhores times do mundo, portanto vamos nos organizar que nem eles e provavelmente vai dar certo.

Errado. Pergunte pra qualquer torcedor espanhol além dos dois times. Mesmo times que apelam pra petrodólares, como o Málaga, não têm esperança de muita coisa na cena nacional. Além disso, isso não quer dizer absolutamente nada em termos de “escola futebolística”: Real Madrid e Barcelona são recheados de estrangeiros desde a década de 50 e a Espanha ganhou tão somente uma Copa do Mundo, sendo que sua filosofia de jogo de 2010 foi totalmente atropelada por um trator sem freios em 2014.

Colocar Corinthians e Flamengo num pedestal e diminuir o restante é uma atitude cancerígena ao futebol brasileiro como um todo. É o esforço conjunto e coletivo de toda a estrutura do jogo no país que forma seus atletas e cria a base combinada de jogadores que vão para a seleção nacional. Criar estas disparidades só enfraquece nossa capacidade coletiva de desenvolver talento futebolístico e do gosto pelo ludopédio como um todo: é muito melhor se embrenhar na cultura do esporte quando seu time está entre iguais do que um mero figurante.

Caberia, talvez, entre os times desprivilegiados, uma combinação de forças para reivindicar uma distribuição mais justa e uma reorganização das verbas fornecidas. A situação só chegou a esse ponto pela capacidade de negociação individual e dos mais favorecidos não questionarem se a presente condição é benéfica como um todo. O Figueirense, sozinho, não tem poder de fogo pra tanto. Outros que estão na mesma situação, no entanto, compõem mais da metade da primeira divisão nacional. Defender este interesse de forma conjunta será difícil, mas talvez se tornará cada vez mais necessário conforme as disparidades forem aumentando e a competitividade geral do campeonato (o grande elogio feito pela imprensa desportiva estrangeira) for diminuindo. E, para reformar esse edifício, só vindo da base para cima.